Para administrar bem o seu dinheiro é interessante entender, primeiro o que ele é.

Para facilitar o entendimento, vamos recorrer a uma pequena história.
João, um jovem humilde de 30 anos, herdou um bom terreno de um falecido tio. Chegando ao local, não encontrou um pé do que quer que fosse. A pequena casa tinha apenas poucos móveis, para os quais “rústicos" seria um elogio e eufemismo. De fruto, só o que encontrou foi uma espiga de milho ainda verde. Certamente esquecida por quem lhe fizera a gentileza de limpar-lhe o terreno.
Aí estava sua herança: um terreno vazio, uma casa que mal merecia ser assim chamada e uma espiga de milho. O que fazer com isso? A primeira opção seria saborear aquela espiga assada e vender a propriedade. Mas o valor de mercado dela naquele estado mal daria para comprar um barraco. Outra opção seria debulhar o milho, plantar e aguardar a colheita. Não tendo nada mesmo a perder, adiou sua vontade de saborear uma espiga assada e trabalhou na plantação. Boa decisão. Poucos meses depois colheu algumas boas espigas. Com duas, se recompensou pela espera e as saboreou assadas. Com algumas outras, fez uma troca com o vizinho por uma galinha com pintinhos. Assim, melhoraria sua dieta com ovos e carne. As melhores espigas separou para um novo plantio. Depois de alguns meses nesse processo de replantar, já havia acumulado cem sacas de milho. Nada mal para um começo.
Infelizmente, naquela pequena cidade perdida no fim do mundo, dinheiro era coisa rara. Assim, vender as sacas não era uma opção. O que os moradores faziam era trocar as sacas por produtos. Ou seja, saca de milho era a moeda corrente da cidade. Casas eram avaliadas em tantas sacas de milho. Terrenos eram avaliados em tantas outras sacas de milhos. E assim tudo o mais.
No entanto, havia um inconveniente: carregar as sacas para cima e para baixo toda vez que quisesse fazer uma compra era muito trabalhoso e mesmo inviável. A solução arranjada: enviar as sacas para o armazém central da cidade. Este, para facilitar os negócios, emitia para os proprietários vales de sacas de milho ao portador. Assim, quando João armazenou suas cem sacas, recebeu cem vales ao portador que poderiam ser usados no comércio local. Ao receber o vale, o vendedor poderia resgatá-lo ou passá-lo adiante. Como a segunda opção era mais fácil e prática, quase ninguém se dava ao trabalho de resgatar.
João, então, levou suas sacas ao armazém e usou os vales para fazer suas compras.
Com essa pequena estória, o leitor mais perspicaz já compreendeu de onde vem o valor de sua nota de R$ 10,00. Vem de alguma riqueza produzida que lhe serve de lastro. Embora na prática seja um pouco mais complicado, está é a base de valor da maioria das moedas.
O leitor também deve ter percebido que, para a economia da pequena cidade da nossa estória funcionar, é preciso:
- que cada vale de 1 saca corresponda a uma saca verdadeiramente armazenada
Se João pegasse 150 vales de 01 saca, 50 destes seriam falsos. Por isso, o governo não pode simplesmente sair imprimindo notas e colocar no mercado.
- que o armazém tenha credibilidade.
Os vales só são aceitos devido à boa fé das pessoas no armazém. Se, por má fé ou descuido, houver menos sacas que vales em circulação, haverá uma crise. Repare o leitor que só haverá crise se o povo descobrir que não há sacas. Enquanto acreditarem que há sacas, aceitarão os vales.
Por isso a credibilidade dos Bancos Centrais ser tão importante.




